Há uma ideia instalada de que um barco que navega no estuário sofre menos do que um barco de mar aberto. Em parte é verdade: a água aqui é salobra, com menos sal do que a do oceano, e a corrosão de peças metálicas avança mais devagar. Mas o casco não se degrada só por causa do sal, e é aí que a conta não bate certo.
Gelcoat não é tinta, e isso muda tudo
O casco de uma embarcação de fibra é revestido a gelcoat, uma resina com pigmento, aplicada em camada espessa. Ao contrário do verniz de um carro, é poroso. Absorve.
Com o tempo, sol e água vão degradando a camada superficial dessa resina, que perde brilho, ganha um tom leitoso e começa a soltar pó. Se passar a mão por um casco assim e ficar com os dedos esbranquiçados, isso é oxidação: material morto por cima do material bom.
E aqui está o ponto que interessa a quem navega no estuário: a oxidação é causada sobretudo por radiação ultravioleta, não por sal. Um barco parado ao sol num pontão do Tejo apanha exatamente a mesma dose de sol que um barco na Arrábida.
A faixa castanha da linha de água
Esta sim é específica de águas com muito sedimento e matéria orgânica, e o Tejo tem ambos em quantidade. A faixa amarelada ou castanha que se forma ao nível da flutuação é contaminação agarrada ao gelcoat poroso.
Esfregar com força é o erro clássico. O gelcoat é abrasável, e quem esfrega com produto errado leva pigmento com a mancha, deixando a zona mais clara e mais porosa do que estava, o que a faz voltar a sujar-se ainda mais depressa. A remoção correta é química, com produto próprio e sem pressão mecânica.
As lágrimas cor de ferrugem
Repare no que está por baixo de cada balaustrada, ferrolho ou parafuso de inox. Há quase sempre uma escorrência acastanhada a descer do ponto de fixação.
O inox liberta partículas metálicas, que se depositam no casco e oxidam. É exatamente o mesmo fenómeno que acontece na pintura de um carro estacionado perto de uma zona industrial, e trata-se da mesma maneira: descontaminação ferrosa, que dissolve as partículas em vez de as tentar arrancar.
Recuperar um gelcoat oxidado
Ao contrário do que muita gente pensa, um casco branco e baço tem quase sempre recuperação. A camada oxidada é fina e por baixo dela está a cor original, intacta.
O trabalho é de abrasão controlada, com compostos de corte que removem a camada morta em passagens sucessivas até chegar ao gelcoat vivo. É demorado e é dos poucos serviços onde a diferença entre antes e depois faz as pessoas parar para olhar.
A parte que não se pode saltar vem a seguir. Um gelcoat acabado de recuperar está aberto e desprotegido, e sem selagem volta a oxidar mais depressa do que estava antes de ser trabalhado. Selante marítimo aguenta uma época; um coating cerâmico aguenta bastante mais.
As duas alturas certas do ano
Antes da época, para o barco entrar na água já protegido e chegar a setembro com metade do desgaste. E no fim, antes de ficar parado meses, porque um barco arrumado com sal e sujidade em cima passa o inverno inteiro a degradar-se sem ninguém dar por isso.
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